
Você já deve ter passado por isso: durante uma conversa com amigas alguém solta: “Sabia que fulana e ciclano já separaram? O casamento não durou nem dois anos”.
Pensando um pouco sobre o assunto, fica impossível não se perguntar: por que será que os casamentos atuais têm durado tão pouco, principalmente quando comparamos com a relação duradoura de nossos pais e avós?
Conversando com a terapeuta de casal e familiar, Lana Harari (SP), descobri que muitas pessoas veem no casamento dos pais uma relação idealizada, mas que, apesar de serem cúmplices, muitos passaram por dificuldades no começo da relação e ainda assim decidiram continuar juntos. “Ninguém sabe se atualmente esses casais de longa data são realmente felizes e estão satisfeitos, ou se a escolha de estarem junto é feita todos os dias. Muitos, inclusive, deixam de lado a relação conjugal, aquela que inclui o sexo e a cumplicidade, para viverem apenas a relação familiar, colocando à frente a felicidade dos filhos”, explica.
Primeiro, de acordo com a terapeuta, é preciso ter em mente que um casamento duradouro não significa necessariamente um casamento feliz. É aí que vem a pergunta: prefiro viver uma relação infernal ou viver sozinha? Lembre-se que vínculos afetivos sempre vêm acompanhados de conflitos. Os valores, expectativas, sonhos e hábitos podem ser diferentes e nem sempre esses vínculos comportam os conflitos e as incompatibilidades.
Os casamentos no século XXI
Talvez, a principal diferença entre os casamentos antigos com os de atualmente é que o casal já não é mais dependente um do outro financeiramente. Pelo contrário! “Já faz anos que a idade conjugal não define mais a mulher, mas sim se ela trabalha, se tem recursos próprios para se sustentar e liberdade para tomar as decisões que desejar”, explica Lana.
E se hoje, graças ao empoderamento feminino (aliás, sabia que a palavra “empoderamento” foi a mais procurada nos dicionários online em 2016?), as diferenças de gênero vem aos poucos diminuindo não apenas no ambiente de trabalho, mas também dentro de casa – quem disse que o homem não pode cozinhar enquanto a mulher cuida das finanças? – fica mais fácil tomar coragem para jogar tudo pro alto e priorizar a liberdade de ir atrás de suas metas, focos e sonhos sem ter alguém podando seus atos e te colocando limites.

Namoro x casamento: duas realidades bem diferentes
Como é comum ouvir casos de pessoas que namoraram há 7, 10 anos e não conseguiram ficar nem um ano casados. Por que será? Lana Harari explica: no casamento aumentamos nosso grau de expectativa sobre o outro e aquela atenção seletiva do começo do namoro vai dando espaço às características reais”.
Já ouviu falar em atenção seletiva? É ela quem te cega lá no comecinho do relacionamento e faz você só enxergar as qualidades do parceiro. Para a terapeuta, entretanto, essa atenção seletiva é extremamente necessária, senão, se tivéssemos uma visão realista do parceiro desde o começo, jamais formaríamos esse vínculo tão necessário para a relação.
É com a chegada do casamento que vem as expectativas, sejam elas conscientes ou inconscientes. Por exemplo: enquanto algumas mulheres afirmam que querem crescer na carreira e formar com o marido um casal poderoso, inconscientemente elas desejam que o homem seja o provedor e assuma a maioria das responsabilidades da casa. No caso dos homens, enquanto muitos desejam uma relação fraternal com a esposa (ser cuidado e zelado diariamente), inconscientemente ele espera que a mulher seja independente e não recorra a ele sempre que surgir um problema. Difícil, né? E tem mais!
Além desses desejos conscientes e inconscientes (que variam de pessoa pra pessoa), é no casamento que se descobre as pequenas diferenças, seja na divisão de tarefas domésticas, nos hábitos, valores e até na divisão do espaço – onde fumar, qual canal de televisão assistir, se a luz deve ou não ficar acesa na hora de dormir… “Essa co-habitação pode gerar conflitos entre os diferentes jeitos de ser e nem sempre o casal tem maturidade para relevar manias e ceder vontades”, diz Lana.

Casamentos em crise! Atenção para as dicas da especialista
Casou há poucos anos e já vê sinais de uma crise conjugal se aproximando? Calma! Talvez vocês só estejam passando por uma fase de adaptação. “A fase de estranhamento pode demorar bastante. Já vi casos de crises que duraram mais de 10 anos. É preciso entender que isso é natural em qualquer novo casamento e que, para fazer a relação dar certo os dois precisam se redescobrir e redefinirem o que querem e no que se transformaram, dentro e fora do relacionamento”, diz Lana. Com as novas metas e vontades determinadas, chegou a hora de firmar um novo “contrato de casamento” – conversa franca sobre o que querem um do outro e como vão fazer, para juntos, alcançarem suas metas como casal.
Lana Harari cita ainda uma lista de pequenas atitudes indicadas por especialistas que ajudam (e muito!) a manter os casamentos saudáveis e felizes. Dá uma olhada:
– Melhorar a comunicação de forma que ela seja clara e livre de ofensas
– Se esforçar para melhorar a vida sexual
– Esclarecer, através do diálogo, as expectativas iniciais e construírem juntos projetos comuns
– Focar na individualidade e separar projetos pessoas dos conjugais
– Saber ceder e fazer concessões
– Se esforçar para cultivar a vida social
– Ter paciência para lidar com a rotina
– Dar ao outro gestos de atenção constantes (desde elogios até palavras de encorajamento)
– Harmonizar as tomadas de decisão conforme as aptidões de cada um (quem é melhor em finanças cuida das contas da casa, enquanto o outro, mais criativo, planeja as viagens e eventos sociais)
– Estar sempre consciente de que a vida está cheia de imprevistos e que é preciso estar reinventar seu casamento constantemente com base nesse conhecimento.
Quando vale a pena procurar terapia?
“O mais rápido possível”, garante Lana Harari, afinal, quando acaba a atenção seletiva, fica difícil fazer o casamento ir pra frente. E não pense você que uma hora de terapia apenas resolve? O trabalho precisa ser constante, principalmente dentro de casa. “Só depois de casados é que você descobre que é impossível não ter conflitos e que filho não conserta uma relação com problemas”, ressalta a terapeuta. Por isso a importante de se redescobrir todos os dias, não apenas como mulher, mas como esposa, companheira e melhor amiga.
Bjs,
Fabi Scaranzi